O Despertar de Roku: Prólogo

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O vento glacial uivava como um espírito vingativo enquanto descia das montanhas e chicoteava o lago congelado. Os caçadores — dois pontinhos numa vastidão branca — abaixaram as cabeças encapuzadas e protegeram o rosto do frio cortante. O avanço deles era lento e só iria desacelerar. Não só os arpões e os corações estavam pesados, como, adiante, uma névoa branca e densa de uma nevasca que se aproximava engolia o horizonte.

— Devíamos voltar pro acampamento! — Aasu gritou para o pai, depois que a rajada cedeu por tempo suficiente para ele erguer o rosto.

O pai de Aasu, um homem gigantesco, um urso-rena de homem chamado Qarsoq, deixou o vento levar as palavras do filho. Era uma verdade óbvia o bastante em circunstâncias normais, mas aquelas não eram circunstâncias normais. As presas deles vinham desaparecendo das rotas de migração usuais ao longo de todo o verão, e eles não podiam voltar de mãos vazias mais uma vez.

Em outra era, Qarsoq e Aasu teriam simplesmente se adaptado e seguido os movimentos mutáveis dos animais, levando a aldeia junto. No entanto, a família deles — como muitos no Norte — havia se mudado para a capital anos antes, então agora deviam obediência às companhias de comércio. Companhias que diziam a eles quando e onde caçar. Companhias que valorizavam eficiência acima da tradição. Companhias rápidas em romper contratos.

Então pai e filho voltaram a cutucar o gelo enterrado sob a neve com as pontas dos arpões, procurando uma das pequenas aberturas circulares por onde as tartarugas-foca vinham respirar. Eles assobiavam para não perder o rastro um do outro e lançavam olhares furtivos ao horizonte, acompanhando a aproximação da tempestade.

Vez após vez, os arpões deles atingiam apenas gelo sólido.

O vento aumentou. A neve chegou. Quando Aasu ergueu os olhos de novo, o branco havia engolido não só as montanhas à distância, mas também Qarsoq. Aasu escutou até captar o som fraco do assobio do pai, então cerrou a mandíbula, apertou o punho no arpão e voltou a atenção para a tarefa.

Algumas batidas depois, a respiração de Aasu travou quando a haste atravessou a neve e espirrou na água. Ele cutucou o ponto mais algumas vezes para ter certeza, depois cavou até descobrir um buraco no gelo do tamanho de um punho. Tão pequeno — uma descoberta imensuravelmente improvável.

Os lábios rachados dele se abriram num sorriso largo. Com certeza, aquilo era mais do que sorte. O destino tinha guiado sua mão e, em breve, entregaria uma tartaruga-foca com carne suficiente para acalmar as preocupações da companhia quanto às habilidades dele.

Aasu soltou um assobio longo e estridente para sinalizar sua descoberta, e Qarsoq abriu caminho pela neve que se aprofundava, com orgulho brilhando nos olhos. Aasu permaneceu estoico, mesmo com o coração disparando. O pai sempre o ensinara que a humildade é companheira da verdadeira força.

Sem dizer palavra, tomaram posição em lados opostos do buraco de respiração, ergueram os arpões e esperaram que um focinho bigodudo rompesse a superfície da água.

E esperaram.

E esperaram.

O vento assobiou. A neve rodopiou. O gelo rangeu e gemeu à distância.

O frio ferroou o rosto de Aasu. Seus músculos começaram a tremer, e o foco vacilou. Ele lutou contra o impulso de quebrar a postura e sacudir os membros, porque Qarsoq também lhe ensinara que a paciência era a diferença entre fraqueza e força, entre fracasso e sucesso, entre morte e sobrevivência.

Mas ele não precisou esperar muito mais.

Uma tartaruga-foca explodiu pelo buraco de respiração, se chocou contra Qarsoq e o derrubou de costas na neve. A criatura prendeu o caçador e o rasgou com os dentes, e os gritos dele despedaçaram o silêncio.

Com o coração martelando e os olhos arregalados, Aasu arremessou o arpão — mas ele ricocheteou inofensivamente no casco duro da tartaruga-foca. A criatura girou, os olhos negros mirando Aasu enquanto escancarava dentes serrilhados, ensanguentados. A pele lisa estava manchada de roxos, e espuma lhe escorria da boca.

Aasu paralisou.

Isso não devia estar acontecendo. Tartarugas-foca não são ferozes como lobos árticos. Elas não rompem o gelo como os leões-orcas. Elas não dilaceram humanos como os cachorros-ursos-polares.

Ainda assim, a uns doze passos dali estava seu pai, gemendo e se debatendo com fraqueza na neve, preso sob uma criatura igual — que agora soltava rosnados roucos, como latidos engasgados. Ela escorregou do corpo de Qarsoq e avançou lentamente na direção de Aasu, arrastando-se para a frente com as nadadeiras dianteiras, em movimentos espasmódicos e erráticos.

Aasu engoliu em seco e manteve o chão. Ele não era um Dobrador de Água, mas tinha uma faca presa na cintura sob a parca.

Devagar, começou a alcançá-la enquanto a tartaruga-foca continuava a aproximação ameaçadora. A fera estava a cinco ou seis passos quando a luva de Aasu entrou sob sua parca. Estava a dois ou três passos quando a mão enluvada e trêmula agarrou o cabo da faca.

Aasu ia sacar a lâmina quando a tartaruga-foca vacilou e quebrou o contato visual. Ela soltou várias tosses engasgadas, cambaleou mais alguns passos e então desabou na neve. O peito subiu e desceu com respirações chiadas enquanto a luta e a luz se escoavam. O silêncio voltou.

Aasu soltou o ar. Não fazia ideia do que tinha acontecido com a criatura, mas não se importava. Passou por ela correndo e se jogou ao lado do pai.

— Pai! — ele gritou.

O rosto de Qarsoq estava pálido, o corpo devastado, e ele já não se mexia. Mas os olhos tremularam abertos ao som da voz do filho, enquanto flocos grossos caíam sobre eles. Ele estava vivo, mas por quanto tempo?

O pânico vibrou dentro de Aasu. O que fazer agora? Seria seguro mover Qarsoq? Aasu não tinha escolha.

Ergueu o olhar e se viu envolto num mundo rodopiante de branco. A nevasca — que ele tinha esquecido no caos do ataque — agora estava totalmente sobre eles. Ele conseguiria encontrar o acampamento daquele jeito? E, se conseguisse, onde ficava o posto avançado mais próximo que pudesse ter um curandeiro?

Ele ia voltar a atenção para o pai quando uma figura começou a emergir da neve, a média distância. Uma pessoa — ou uma alucinação. Afinal, quem estaria ali, no meio de uma tempestade?

Uma terceira possibilidade entrou na mente dele conforme a figura se aproximava, crescia, ficava mais nítida. Aasu crescera ouvindo histórias de um espírito em forma humana que ajudava aqueles perdidos no gelo a encontrar o caminho até a segurança. Talvez fosse aquele espírito.

— Ajude a gente, por favor! — Aasu gritou, caso não estivesse imaginando coisas. — Meu pai está muito ferido!

A pessoa (ou espírito, ou alucinação) não disse nada, apenas continuou a se aproximar. Logo, Aasu conseguiu distinguir a silhueta de um aldeão em peles de inverno. Não — uma aldeã, julgando pela barra mais longa e curva da parca. O capuz estava erguido e bem ajustado, então ele não via o rosto por completo.

Ela parou e se ajoelhou ao lado da tartaruga-foca. Cutucou e remexeu o corpo, virou-o e se inclinou mais perto. Os ombros caíram, e ela soltou algo que soou como um resmungo decepcionado — embora Aasu não conseguisse imaginar por quê.

— Por favor! — ele chamou de novo, frustrado com a falta de urgência dela. — A gente precisa da sua ajuda!

A mulher hesitou por um momento, ficou de pé e então voltou a caminhar em direção a ele — ainda num ritmo sem pressa.

Aasu olhou para o pai, cujos olhos tinham se fechado. Ele sacudiu o homem, insistindo para que acordasse, mas Qarsoq permaneceu sem resposta. Um nó se formou na garganta de Aasu quando o coração dele começou a se partir.

Ele ergueu o olhar e encontrou a mulher de pé sobre os dois. Ela era alta, com uma mandíbula forte e cabelos escuros trançados escapando debaixo do capuz, que ainda encobria os olhos.

— Finalmente funcionou — Aasu ouviu a mulher murmurar para si mesma enquanto examinava o corpo mutilado de Qarsoq. — Mas não por tempo suficiente…

— Por favor — Aasu implorou, ignorando os comentários estranhos. — Quem quer que você seja⁠—

— Atka — a aldeã interrompeu inesperadamente.

— Certo… Atka — Aasu repetiu. — Ajude ele. Por favor.

Mas a mulher que se chamou de Atka balançou a cabeça.

— Eu não estou aqui pra ajudar — disse ela, com palavras tão gélidas quanto a água revolta, invisível sob o gelo enterrado.

Com isso, Atka se virou e foi embora. Aasu continuou chamando por ela, mas o vento uivante afogou suas pragas e seus pedidos de socorro enquanto ela desaparecia através do véu de neve rodopiante.

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