Avatar Aang: O Último Mestre do Ar – A História Expandida: Pesadelos e Devaneios

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Naquela época, o vento era sempre leve e brincalhão.

Aang ria junto dos jovens dobradores de ar, todos reunidos ao redor dele enquanto voavam cada vez mais alto, planando acima do templo que todos chamavam de lar. Com um olhar por cima do ombro, ele os desafiou:

— Quem chegar primeiro ao templo vence!

— O quê? Aang, assim não vale!

Era… sim, Dawa. Ele se lembrava de Dawa. Do jeito como fazia bico, aquela expressão carrancuda sempre facilmente desfeita por uma provocação e um sopro de ar no rosto.

Aang inclinou o planador, laranja contra o céu azul. Girando no ar, lançou-se para baixo, atravessando uma camada de nuvens, enquanto o bando de jovens dobradores de ar atrás dele explodia em gargalhadas. Ele era só uma criança de novo, voando. Rir era fácil. Pegou uma corrente de vento quase sem esforço. Atrás dele, as crianças gritavam:

— Vamos pegar ele!

— Anda, rápido!

Aang mergulhou e, logo abaixo, encontrou uma de suas coisas favoritas: uma manada de bisões voadores. Considerados os primeiros dobradores de ar, os enormes animais flutuavam tranquilamente entre as nuvens, cada uma das seis patas balançando no ar, o pelo exuberante e macio. Aang deslizou pelo meio da manada simplesmente pelo prazer de fazer aquilo, pelo prazer de estar cercado por outros dobradores de ar. Os bisões grunhiram em aprovação. Um deles virou de costas, expondo a barriga escura e macia, com as patas se agitando de alegria. Aang o imitou. Afinal, o que era um dobrador de ar senão uma imitação de um bisão voador? Fechou o planador e caiu pelo céu de costas, deixando que o vento o carregasse para onde bem entendesse, rindo.

— Oi, Nima! — Aang acenou preguiçosamente para um dos mais velhos, que voava montado em um bisão.

— Bom dia, Aang! — gritou Nima, alegre. Pelo menos não parecia mais chateado com a torta que Aang tinha lançado nele alguns dias antes.

Aang inclinou a cabeça e viu outro Nômade do Ar cuidando de um bisão. Qual era mesmo o nome daquele nômade? Por que os nomes estavam todos tão nebulosos? De repente, lembrou-se, triunfante.

— Ei, Mip-Mip! — Aang o cumprimentou, com as mãos atrás da cabeça e as pernas cruzadas, ainda despencando pelo céu.

— Ah, olá, Aang! — respondeu Mip-Mip, erguendo os olhos apenas por um instante da tarefa de limpar entre os dedos de uma das patas do bisão.

Aang atravessou outra camada de nuvens e, lá embaixo, estava seu lar. O Templo do Ar do Sul.

Colunas brancas se erguiam em sua direção, coroadas por torres azuis, o azul do céu, de suas tatuagens, da liberdade. Por mais que fosse um nômade e tivesse conhecido tantos lugares pelo mundo, o Templo do Ar do Sul seria sempre o seu favorito. À medida que se aproximava, lembranças vinham à tona, uma após a outra. Naquele pátio, havia mostrado seu patinete de ar pela primeira vez. Aquela janela era a que havia quebrado ao tocar alto demais uma trompa tsungi durante uma aula de música. Tivera de substituir a janela sozinho. Logo depois daquela torre ficava a arena onde costumava jogar bola de ar com Dawa e seu grupo. E, logo depois, ficava o outro pátio. Aquela sacada era onde o Monge Gyatso o confortara, quando acabara de descobrir que era o Avatar. Quando lhe disseram que uma guerra estava por vir e que ele precisava estar preparado. Quando lhe disseram que teria de partir.

Ele ouviu as crianças se aproximando, logo além das nuvens.

Era hora de levar aquilo a sério. Aang abriu o planador novamente.

Foi então que surgiu uma sombra escura. Sua mente disparou, num lampejo repentino e estrangeiro. Zhao, Azula, Ozai? Mas não, ele era apenas uma criança, estava no templo, o lugar mais seguro do mundo, acessível apenas por bisões voadores. Ele ainda nem conhecia nenhuma daquelas pessoas…

— Ah! — exclamou uma voz familiar na escuridão.

Aang relaxou imediatamente.

O Monge Gyatso planava acima dele.

— Na hora certa! — brincou o monge mais velho. — Pode me dar uma carona?

O bigode de Gyatso ondulava de forma impressionante ao vento, como duas mariposas-gatinho dançando. Seu rosto estava tão sereno quanto sempre, enquanto todas as partes de suas vestes esvoaçavam descontroladamente. Então ele fechou o planador e pousou em cima do de Aang.

— Gyatso! — Aang começou a cair depressa, desequilibrado pelo peso do mestre se ajeitando, cruzando as pernas, sentando-se metade sobre a cauda do planador de Aang e metade sobre as pernas dele, até encontrar uma posição confortável. — Essa não é a melhor hora!

— Estou ficando velho, você sabe. — Gyatso suspirou dramaticamente. — Meu corpo não se mexe mais como antes. Um dia você vai entender.

As crianças estavam se aproximando. Aang fez força para manter a si mesmo e Gyatso no ar. Era tudo o que conseguia fazer para garantir que os dois não despencassem direto pelo templo.

— Eu meio que estou ocupado com uma coisa — resmungou Aang. — Você é muito pesado!

— Pesado? — Gyatso riu, incrédulo. — Eu? Eu não como nada além de vegetais.

— Torta não é vegetal! Eu vou perder a corrida!

— Corrida? Que corrida?

Aang simplesmente teria de ignorar seu mestre de dobra de ar. Reuniu todo o ar ao redor de si e então disparou em direção ao templo. Ficaria sem fôlego depois, mas valeria a pena se conseguisse vencer, de algum jeito, mesmo com Gyatso perfeitamente equilibrado sobre o planador. Se conseguisse atravessar a janela primeiro, ganharia a corrida. Estendeu a mão, mas um pequeno pé laranja pousou no parapeito antes.

Então mais pés pousaram em cima do planador. Cada criança conseguiu, de alguma forma, encontrar um espacinho que não estivesse ocupado por Gyatso. Ou talvez Gyatso estivesse ajudando, dando a elas pequenos impulsos de ar. As crianças saltaram do planador de Aang e entraram no templo, enquanto ele só conseguia descer cada vez mais. A corrida estava completamente perdida.

— Vou contar para todo mundo que eu conheço! — vangloriavam-se as crianças lá de cima. — Finalmente vencemos! Conseguimos!

Ofegante, Aang se agarrou à janela seguinte, um andar abaixo.

— Ah, qual é, Gyatso! — Ele se virou para encarar o mestre.

Mas havia alguma coisa errada. Gyatso estava ali, porém enevoado, desaparecendo aos poucos.

— Aang. — A voz de Gyatso ecoou. — Como dobrador de ar, é importante saber quando se conter, mesmo quando se tem o poder para vencer.

— Não é como se eu tivesse entrado no Estado Avatar para ganhar uma corrida…

— Muitas pessoas vão depender de você — disse Gyatso, e sua voz subitamente se tornou suave.

— Gyatso? — perguntou Aang, cauteloso.

Então Gyatso desapareceu, como se tivesse se dissolvido na névoa.

Em seu lugar, uma bola de fogo incandescente avançava direto na direção de Aang.

O templo inteiro escureceu. As sombras se moveram, distorcidas e alongadas pela enorme bola de fogo. Aang corria pelo templo quando tudo mudou, e de repente ele o observava do alto, como se estivesse despencando pelo céu novamente. Mas, daquela vez, o templo estava em chamas. O fogo subia pelas torres brancas, e os pináculos azuis já se transformavam em cinzas.

— Onde está o Avatar? — gritou um Nômade do Ar.

Ao redor dele, seu lar ardia, o fogo consumindo tudo o que alcançava. A escadaria em espiral, no centro da torre, rachou. Planadores pegaram fogo, fazendo monges despencarem pelo ar. Eles não passavam de borrões de roupas laranja e amarelas, cores que se confundiam demais com as próprias chamas.

— Estou aqui — tentou dizer Aang, mas estava paralisado, incapaz de se mover, preso observando tudo lá de cima.

— Socorro!

— Onde está o Avatar?

— Onde ele está?!

— Ele fugiu!

— Não — implorou Aang, enquanto seu mundo continuava queimando. — Não, estou aqui, estou bem aqui…

— Ele se foi. Abandonou a gente justamente quando mais precisávamos dele…

Então Gyatso apareceu outra vez, e era a primeira vez que Aang via seu rosto sem a máscara de serenidade. Desesperado, Gyatso afastava as chamas com a dobra de ar e se juntava ao coro:

— Aang! Onde você está, Aang?

— Estou aqui! — gritou Aang.

Quantas vezes tinha imaginado aquilo? Sempre que pensava que poderia ajudar. Afinal, agora era um Avatar plenamente realizado, mestre dos quatro elementos, capaz de controlar o Estado Avatar; certamente, dessa vez, poderia fazer alguma coisa.

Mas, assim como em todas as outras vezes, estava paralisado, como se ainda estivesse preso naquele iceberg, congelado enquanto os monges gritavam por sua ajuda.

E então ele já não estava acima do templo.

Estava no oceano, tudo ao redor gelado. Ia morrer. Afundava cada vez mais fundo, com os mares revoltos por toda parte. Seu corpo recorreu instintivamente a um poder, como se já tivesse feito aquilo centenas de vezes. Uma esfera de energia se formou ao redor dele, protegendo-o do oceano, salvando sua vida, mas também mantendo-o longe de onde deveria estar. Congelando seu corpo no tempo, sua mente sem saber que, naquele exato momento, sua nação, seu povo, clamava por ele enquanto queimava, enquanto morria…

Aang despertou assustado.

Acima dele, um céu azul e límpido.

Aquilo era tão parecido com o céu pelo qual havia voado em seu sonho. Mas aquele céu existira mais de cem anos antes. Ele respirou fundo.

Aquela guerra já havia terminado fazia muito tempo. Mesmo assim, seus sonhos estavam piorando.

Alguma coisa pousou em seu peito. Olhos grandes e curiosos o encararam.

— Oi, Momo — disse Aang, passando a mão pelas orelhas de seu lêmure alado.

Coçou o queixo de Momo. O pelo ao redor da boca dele, antes escuro, agora começava a mostrar sinais de grisalho. Isso dava ao amigo uma aparência sábia, merecida.

Atrás dele, ouviu-se um ronco baixo. Então uma enorme cabeça com chifres, peluda e marcada por uma seta, surgiu por cima dele. Os olhos castanhos mais gentis do mundo, sempre ali para Aang.

— Oi, Appa. — Aang sorriu para seu amigo mais antigo. — Dormi por muito tempo?

Appa bufou, e o ar de suas narinas obrigou Aang a se sentar, colocando-o na posição perfeita para receber uma bela lambida.

— Está bem! Está bem! — Aang riu. — Já acordei!

Mesmo assim, o sonho permaneceu com ele. Ao longo dos anos, havia aprendido a lidar com a culpa. Quando Aang era criança, o Guru Pathik lhe ensinara a liberar o chakra da água bloqueado pela culpa, a aceitar que, sim, ele havia fugido do Templo do Ar do Sul, mas que também não podia deixar aquela culpa julgá-lo agora. Ele e os amigos tinham trabalhado juntos para acabar com a longa guerra que começara com a morte de seu povo. E, depois da guerra, continuara trabalhando pela paz entre as nações, colaborando com o Senhor do Fogo Zuko para que a Nação do Fogo pagasse reparações de guerra e ajudasse as outras nações a se reconstruírem. É claro que nem mesmo toda a riqueza da Nação do Fogo poderia trazer de volta o povo de Aang. Mas ele fazia o possível para aceitar que nada poderia mudar o passado ou devolver tudo o que havia perdido.

Não, não era a culpa, mas a alegria que o atingia com força. Quando seu subconsciente trazia de volta as risadas, a liberdade dos outros meninos no templo, meninos mais novos do que ele tinha sido, que o admiravam, desafiando-o em corridas de bola de ar e planador. Quando se lembrava das travessuras com Gyatso, lançando tortas nos outros monges, deixando tofu fedido do lado de fora da sala do Conselho de Anciãos. Quando se lembrava do orgulho no olhar de seu mestre quando Aang recebeu as tatuagens, de como os olhos do velho monge haviam brilhado, praticamente entrando ele próprio no Estado Avatar. Quando se recordava dos festivais, tocando flauta, empinando as pipas-peixe-grua com seus amigos, cujos nomes precisava se obrigar a lembrar, precisava. Dawa, Nima, Mip-Mip. Porque ninguém mais conseguiria se lembrar deles.

Aquilo causava uma dor com a qual ele jamais conseguiria se acostumar, uma dor que deixava Katara preocupada, que agora o mandava seguir viagem.

Ele se levantou, sentindo as costas doerem. Talvez Gyatso tivesse razão. Seu corpo não se recuperava mais instantaneamente como quando tinha doze anos, viajando pelo mundo, tentando derrotar a Nação do Fogo, dormindo na terra dura que Toph nem se dava ao trabalho de amaciar e praticamente sem sentir nada no dia seguinte. Appa grunhiu.

— Eu sei. Você é o único que tem algum direito de reclamar de dor nas costas. Tudo bem, vamos continuar nossa viagem.

Aang juntou seus poucos pertences e os jogou sobre a sela de Appa. Momo subiu para seu lugar favorito no ombro de Aang. Aang saltou para cima de seu bisão voador e ficou de frente para o destino dos três.

— Vamos para nossa antiga casa — disse ele.

A uma curta viagem dali erguia-se o decadente Templo do Ar do Sul.

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Capítulo 1