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A Aurora de Yangchen: A Primeira Etapa

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Aos onze anos, Yangchen já sabia, em um nível intelectual, quem ela era, e tratava sua avataridade com a seriedade de uma criança a mando de suas anciãs. Esse é um segredo muito importante, certo? Como a receita de creme da Tsering. Melhor não falar sobre isso até descobrirmos mais algumas coisas.

 

As crises involuntárias de memórias vívidas ainda ocorriam. A facilidade com que os Avatares passados se infiltravam no discurso de Yangchen incomodava as líderes do Templo do Oeste. Ela escutava por acaso nas discussões sobre ela, com o ar a mantendo sob os parapeitos das janelas, escondida atrás dos pilares.

 

— Sabe, nós continuamos fazendo essa pergunta, o que fazemos com ela? — Ela ouviu Jetsun dizer um dia, mais afiada do que ela geralmente era com suas anciãs. — A resposta é: nós vamos impedi-la de bater a cabeça no chão, e quando as memórias acabarem, continuaremos. É isso o que ela precisa de nós, então é o que daremos a ela. Nada mais, nada menos.

 

Como se Yangchen precisasse de outra razão para adorar sua irmã mais velha. Jetsun não era sua parente de sangue, ou talvez elas fossem primas de quarto ou quinto grau, mas isso definitivamente não importava. A garota que cortou uma fruta de maneira estúpida, mas ao menos lhe deu os pedaços simétricos, era sua irmã. A garota que não teve piedade de você na quadra de bola de ar e riu da sua cara enquanto te manteve sem pontos, era sua irmã. Jetsun ou era a pessoa que ouviria Yangchen chorar com a maior paciência, ou a primeira a chateá-la.

 

Então fazia perfeito sentido que Jetsun lhe guiasse através da sua primeira tentativa de meditar para dentro do Mundo Espiritual. Um guia era uma âncora tanto quanto um desbravador, uma voz chamando na escuridão.

 

— Não tenha muitas expectativas — Jetsun disse a uma Yangchen que zumbia de entusiasmo. — Nem todo mundo tem a habilidade de cruzar entre reinos. Você não será menos ou mais uma Avatar, ou uma Nômade do Ar, ou uma pessoa, se isso não acontecer.

 

— Pfft. Se você conseguiu, eu consigo. — Se você fez isso, eu preciso fazer isso. Para me tornar mais como você.

 

A acólita mais velha revirou os olhos e deu um peteleco na testa de Yangchen, onde a ponta da seta eventualmente estaria.

 


 

Elas foram para os prados acima dos penhascos do Templo do Ar do Oeste. Não havia necessidade de viajar até o Templo do Leste, o ponto de partida para muitas jornadas espirituais, quando elas podiam tentar mais perto de casa primeiro. Além disso, Jetsun zombou, a santidade extra do Templo do Leste era mais reputação do que fatos comprovados.

 

Na grama havia um círculo de meditação, um piso de pedra nivelado à terra. Cinco colunas de pedra se sobressaiam ao redor do círculo, desigualmente espaçadas. Elas se pareciam com dedos e um polegar, em suas pontas as espirais triplas dos nômades do ar eram as impressões digitais. Yangchen sabia sobre esse lugar, mas sempre o evitou.

 

 — Parece que um gigante está prestes a me agarrar.

 

 — Ou deixar você ir — Jetsun disse — Uma mão somente abre ou fecha. Mas não pode fazer qualquer uma dessas ações duas vezes seguidas.

 

Yangchen nunca soube como Jetsun conseguia ser tão franca e enigmática ao mesmo tempo. As duas sentaram—se na palma da mão do gigante, uma de frente para a outra. Elas não estavam sozinhas. A Abadessa Dagmola e a bibliotecária Tsering vieram junto e se rebaixaram a assistentes, preparando incensos e um berrante. A própria Abadessa iria tocar o sino da meditação. Não houve hesitação das duas mulheres muito mais velhas em aceitar Jetsun como guia.

 

A sessão começou. O incenso fumegante era afiado e terroso, como resina de árvore. Yangchen podia sentir os sobretons do berrante através de seu assento de pedra. Ela perdeu a conta das batidas de sino que marcavam o tempo e apontavam sua falta de sentido.

 

De repente, ela viu um brilho claro através de seus olhos fechados, como se ela estivesse trabalhando sob as nuvens o tempo todo. Quando ela os abriu, a luz era intensa, mas não ofuscante. As cores eram mais brilhantes, como se os próprios elementos tivessem sido moídos em um pilão e então repintados ao voltar à realidade. Flores vermelhas nos prados brilhavam como brasas, veias verdes pulsavam nas folhas das copas das árvores que possuíam o tamanho do telhado de uma casa, e o céu estava mais azul do que um bolo com puro corante índigo.

 

Yangchen tinha usado um pouco da sua avataridade. Não aconteceu com ela involuntariamente, não a atingiu como um trovão entre suas têmporas, não atravessou dolorosamente por seu corpo danificando a paisagem. Ela tinha feito isso. Ela fez isso.

 

Sua vitória. E o melhor de tudo, sua pessoa favorita no mundo estava ali bem ao seu lado para compartilhar o momento.

 

 — Huh, — Jetsun disse, em um de seus eufemismos clássicos. — Primeira tentativa.

 

Yangchen queria rir e saltar dois metros no ar. Mas ela manteve a cabeça fria, assim como sua guia.

 

— Talvez eu só tenha lembrado como.

 

— Humildade não é mais importante do que a verdade. Eu acho que você conseguiu isso sozinha.

 

Ela pensou que seu coração iria explodir. Sobre as colinas do Mundo Espiritual, um grupo de grandes baleias aladas, translúcidas e gelatinosas, lentamente flutuava pelo céu. Perto dali um cogumelo saltitante soltou uma nuvem de esporos, que se tornaram vagalumes cintilantes.

 

Ela foi atingida por uma pergunta:

 

—  O que fazemos agora?

 

— Esta é a beleza disso. — Jetsun disse. — Nós não fazemos nada. Não há utilidade para o Mundo Espiritual, e aí mora a grande lição. Daqui você não retira nada. Você não antecipa ou planeja; você não luta. Você não se preocupa com o valor ganho ou perdido. Você apenas existe. Como um espírito.

 

Um beicinho de decepção cruzou os lábios de Yangchen.

 

— Temos que existir nesse único ponto apenas? Nós podemos pelo menos explorar?

 

Jetsun sorriu para ela.

 

— Sim. Sim, nós podemos.

 

Yangchen pegou a mão da irmã e decidiu que poderia haver uma chance de ela gostar de ser o Avatar.

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  1. pedra disse:

    De primeira

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